Hoje acordei extremamente triste e sem ânimo para nada - inclusive para levantar da cama. A chuva lá fora estava forte desde a madrugada, mas nada que se comparasse ao cenário desolador que dentro de mim se formara. Meus pensamentos eram os piores possíveis: estava me achando uma feia e chata que não serve para nada! Impressionante como eu consegui formular tantos pensamentos depreciativos em tão pouco tempo e como isto me modificara de forma tão brusca e rude.
Logo vi que, se eu não fizesse algo, iria passar o dia me afundando em mágoas e depreciações; por isso, estiquei o braço e peguei um bloco de anotações e, sem sair da cama, comecei a escrever poesias na tentativa desesperada de emergir daquele poço de tristeza. Mas, como meus versos estavam feios, vazios e sem nexo, julguei melhor não continuar.
Passei, então, a desenhar.... A esta altura, é desnecessário dizer o quão horríveis ficaram meus rabiscos. Rasguei a folha e, quase em pranto, comecei a orar. Pouco tempo depois, percebi que orava para um Deus surdo, pois nada em mim estava mudando e os pensamentos ruins apenas se multiplicavam velozmente me tornando a cada segundo mais desprezível.
Da tristeza passei ao ódio. Por que estava acontecendo aquilo logo tão cedo? E por que eu não conseguia controlar nem mesmo o meu pensamento? Foi quando, finalmente, e com muita raiva, levantei da cama e resolvi encarar este dia mal-humorado! Qual não foi a minha surpresa quando eu abri a janela do meu quarto e encontrei um passarinho todo molhado se esgueirando nas grades. O momento que o vi não passou de segundos, mas naquele curto espaço de tempo percebi que, ainda que eu ache Deus surdo, por não ouvir minhas preces, ele não é mudo, pois fala todo o tempo conosco, mas nós - cegos, surdos e mudos - não percebemos seus sinais.

